Esse artigo é o primeiro de uma série que Atiradores & Colecionadores pretende publicar, denominada de Pistolas Clássicas. Abrangeremos, dentro da enorme variedade de fabricantes e modelos, as pistolas semi-automáticas que mais se destacaram no cenário mundial, seja em seu emprego militar ou policial em larga escala, como também por suas soluções inovadoras.

Nada mais justo do que iniciar a série de artigos focando um dos maiores gênios inventivos de armas de fogo da história: o criador das pistolas Browning, o norte-americano John Moses Browning. 

HISTÓRIA

As histórias de John Moses Browning e da Fabrique Nationale d’Armes de Guerre estão juntas desde o ano de 1897. A combinação delas resultou em produtos de uma genialidade sem rival, no desenvolvimento e na fabricação de armas de fogo, muitas delas ainda utilizadas até os dias de hoje. John Moses Browning nasceu em Ogden, estado de Utah, nos Estados Unidos da América, em 1855 e faleceu em 1926. Seu pai era um pastor mórmon, que na infância havia sido aprendiz de armeiro, e mais tarde, tornou-se um fabricante de armas feitas por encomenda. Não seria, pois, surpresa para ele que seu filho iria se tornar, um dia, um dos mais prolíficos e geniais projetistas de armas do mundo. Um de seus primeiros projetos de um rifle chamou a atenção da Winchester Arms Co., de Hartford, Connecticut. Browning e seus irmãos, então sócios na época, produziu cerca de 600 desses rifles. Satisfeita com o resultado, a Winchester resolve adquirir a patente dessa arma, que se tornaria o famoso rifle Winchester modelo 1886.

Entretanto, em 1897, infelizmente para a Winchester, certos desentendimentos entre John e o pessoal da firma fez com que ele decidisse fazer uma “joint-venture” com o fabricante belga F.N.: a Fabrique Nationale d’Armes de Guerre. Assinado o contrato, John começou a trabalhar em um projeto de pistola semi-automática, de pequeno porte. A F.N. havia sido fundada em 1889 por um grupo de dez empresários da cidade de Liège para a fabricação de 150.000 fuzis Mauser modelo 1889, destinados ao Governo Belga. Encorajados com o sucesso dessa empreitada, a companhia decidiu prosseguir com a fabricação de armas e novos projetos.

O primeiro projeto de Browning para a F.N. resultou em uma de suas pouquíssimas falhas. Tratava-se de uma pistola automática (disparava tiros em rajadas) que utilizava um cartucho de calibre .38, mas que se mostrou inadequada e muito difícil de ser controlada.

John Moses Browning (1855-1926)

O MODELO 1900

Posteriormente, chegou a vez de uma nova arma, o modelo 1900, que foi a primeira arma projetada por Browning a ser produzida em larga escala. Ela foi precedida por dois modelos: uma patenteada em 1897 que, aliás, seria a base para as pistolas Colt, e a 1899, muito similar à 1900. Essa última foi, na verdade, patenteada em março de 1899.

A impressionante marca de 1.000.000 dessas pistolas foi atingida até o ano de 1912. Foi a arma responsável pela consolidação e introdução comercial do cartucho 7,65mm, que na verdade, era um desenho derivado do .32 Bergmann Simplex. Porém, os dois modelos anteriores de Browning já o utilizavam também.

Uma das características marcantes dessa arma era a sua mola recuperadora, alinhada sobre o cano e paralela ao mesmo, uma solução inédita e que passou a ser um padrão na maioria das armas desenvolvidas desde então. A capacidade do carregador era de sete cartuchos. Nesta época já se notava o acabamento esmerado e o emprego, pela F.N., de materiais de alta qualidade, o que contribuiu para a ótima aceitação de suas armas no mercado.

A título de curiosidade, atribui-se a essa arma o fato dela ter sido utilizada pelo assassino, no atentado ao Arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, quando em visita a Saravejo, na Bósnia, em 28 de junho de 1914, evento que desencadeou a I Grande Guerra. Devido à essa fama, essa arma recebeu o codinome de "mata-duques". Porém, existem dúvidas em relação ao fato de  que tenha sido realmente uma Browning 1900 ou talvez o modelo 1910, a arma que realmente foi utilizada.

A pistola Browning modelo 1900, em calibre 7,65mm, um sucesso de vendas na sua época.

Pistola Browning modelo 1900 (foto do autor, de coleção particular)

O MODELO 1903

Em 1903 a FN lançou sua primeira pistola voltada ao uso militar, em um calibre mais potente. Foi a Browning 1903, em calibre 9mm Browning Long, hoje obsoleto, uma versão pouco mais curta que o atualmente bem conhecido .38 AUTO. A Bélgica adotou essa pistola, bem como Dinamarca e Suécia. A indústria sueca Husqvarna a fabricou, sob licença da FN, a partir de 1907. Nessa arma, que ainda é uma pistola sem trancamento de culatra (blow-back), John Browning alterou substancialmente o desenho, colocando a mola recuperadora embaixo do cano e não mais sobre ele, como na 1900. Isso permitiu um desenho com perfil mais baixo. Mecanicamente, abandonou a solução de percussor móvel por ação de mola para um semi-fixo golpeado por um cão interno. A capacidade do carregador também era de sete cartuchos, embora tenham sido fabricado para ela, magazines mais extensos, com até 12 cartuchos. Uma coronha de madeira, ao estilo da usadas nas Mauser C96, foi também desenvolvida e adotada militarmente e se encaixava no prolongamento desse magazine estendido.

A Browning 1903, em calibre 9mm Browning Long, versão militar (acima) e um modelo decorado (engraved), para uso civil. A partir desse desenho, Browning iria nortear o desenvolvimento futuro de pistolas automáticas, inclusive o das Colt Pocket Pistols e até mesmo da Colt 1911

O modelo 1903 possuía, segundo amplamente divulgado pela própria F.N. três dispositivos de segurança: a) uma trava lateral, que bloqueava o cão interno e ao mesmo tempo evitava que o ferrolho fosse aberto. Servia também para travar o ferrolho aberto no ato da desmontagem; b) a trava de empunhadura, a qual teria que ser necessariamente pressionada pela mão do atirador para que o gatilho fosse liberado, e c) trava do carregador, um engenhoso dispositivo que não permitia que a arma disparasse sem o carregador estar totalmente inserido na empunhadura. Algumas dessas idéias foram utilizadas em quase todas as pistolas posteriores, desenhadas por Browning.

O MODELO 1905

Em 1905, Browning patenteou um desenho de pistola semi-automática de bolso, a pedido da fábrica Colt, dos Estados Unidos, em calibre 6,35mm (25 AUTO), que foi chamada de Colt Vest Pocket Pistol, algo como “pistola de bolso”. Nessa mesma época, na Europa, também havia um mercado ávido por armas que fossem facilmente dissimuladas. Assim, em 1906, a F.N. lançou uma pequena pistola, em calibre 6,35mm (.25 ACP), idêntica à Colt Vest Pocket, denominada de modelo 1906. Algumas referências, entretanto, atribuem a ela, o ano como sendo de 1905. A capacidade do carregador era de seis cartuchos, o que permitia uma empunhadura bem curta. Pela primeira vez, em ambas as armas, John Browning inovava com várias idéias: mola recuperadora envolvente no cano e mantendo os dispositivos de segurança já utilizados na 1903.

À esquerda, a Colt Vest Pocket Pistol e à direita a F.N. 1906, ambas baseadas em um mesmo projeto de Browning, em calibre 6,35mm. Como pode se notar, as duas armas eram idênticas.

O MODELO 1910

Com o grande sucesso e aceitação da 1906, a F.N. resolveu lançar, em 1910, uma pistola de uso civil e policial, baseada no projeto da irmã menor, e que seria a sucessora natural do modelo 1900, utilizando, além do calibre 7,65mm, o denominado 9mm Browning Curto, que é hoje o popular .380 ACP. Essa pistola recebeu posteriormente a denominação de Modelo 10. A decisão de Browning de manter, nesta arma, a posição da mola recuperadora envolta no cano, resultou em um desenho moderno, elegante e esguio.

A pistola F.N. modelo 1910, em calibres 7,65mm (.32 AUTO) e 9mm Browning Curto (.380 ACP) em versões “presentation”, com placas de cabo em madre-pérola, e a oxidada em negro com placas de cabo em ebonite preto.

Nessa arma, Browning manteve as mesmas características de segurança do modelo 1903 e o sistema ainda permanecia o de culatra destrancada (blow-back). Para a desmontagem, havia uma pequena luva em torno da extremidade do cano que, girada em ¼ de volta, liberava a mola recuperadora. Mais uma vez, e até cerca de 1935, a F.N. havia conseguido vender mais de 1.000.000 dessas pistolas. A capacidade do carregador era de oito tiros para o calibre 7,65mm e de sete tiros para a .380. Durante muitos anos ela se manteve em serviço nas forças policiais belgas, holandesas e dinamarquesas.

O MODELO 1922 (10/22)

A sucessora da 1910 foi o modelo 1922, mecanicamente idêntica, fornecida nos mesmos calibres, porém com cano e empunhadura mais alongados. Rapidamente, foi substituindo a 1910 nas forças policiais, por permitir maior capacidade de tiros e melhor precisão. Para se adaptar ao comprimento maior do cano, foi introduzida uma luva maior, acompanhando o perfil externo do ferrolho e fixada no sistema baioneta, com encaixes internos que se soltavam com ¼ de volta, após leve compressão da mola recuperadora.

O modelo 1922, mecanicamente idêntica ao modelo 1910, mas oferecendo um cano mais longo e um carregador com maior capacidade de cartuchos.

A F.N. tinha em mente o mercado militar para essa arma, apesar de oferecê-la em dois calibres relativamente fracos para essa finalidade. Mesmo assim, a arma foi adotada pelo Exército Holandês, pela Iugoslávia e pela própria Bélgica. Durante a ocupação belga pelas forças alemãs na II Guerra, os alemães mantiveram a produção dessa arma, apesar de terem piorado a qualidade, consideravelmente. Armas desse modelo que são encontradas com marcas alemãs são comuns na Europa e devem ser inspecionadas com cautela antes de serem utilizadas. Outra nomenclatura muito utilizada para esse modelo é 10/22. A capacidade de cartuchos era de 8 e 9, respectivamente para a 380 AUTO e 7,65mm Browning.

Vista interna da pistola Browning 10/22 – nota-se que, ao contrário da 1903, o percussor era móvel por ação de mola.

O MODELO BABY BROWNING

Por volta dessa época, depois de vários anos de produção da Browning 1906, em calibre 6,35mm, com mais de 4.000.000 de armas produzidas, a F.N. decidiu lançar a Baby Browning, no mesmo calibre, mas com desenho bem diferente do anterior. Havia três versões básicas: as duas primeiras eram idênticas mecanicamente, mas o modelo vendido na Europa possuía a inscrição “Baby” nas placas da empunhadura; as enviadas ao mercado norte-americano, apenas o logotipo F.N.; a terceira versão teve seu peso aliviado pelo uso de um corpo em alumínio e só foi comercializada nos Estados Unidos. A capacidade do carregador das três versões era a mesma, de seis cartuchos.

A Baby Browning em calibre 6,35mm para o mercado Europeu

O MODELO 1935 “HI-POWER”

Antes de sua morte, em 1926, Browning deixou desenhos e projetos de uma arma totalmente nova, que seria chamada posteriormente de modelo 1935. A patente foi registrada em 1927, somente três meses antes de sua morte. Nesta arma, o sistema de travamento de culatra (locked-breech) desenvolvido por Browning para a Colt 1911 recebeu seus últimos melhoramentos, como a eliminação da pequena biela articulada ao cano, substituída por um engenhoso encaixe deslizante. Talvez com a exceção da própria Colt 1911, essa pistola tem sido uma das de maior sucesso e utilização no mundo, sendo adotada pelas Forças Armadas da Grã-Bretanha, Canadá e Dinamarca, dentre outros países. Foi utilizada extensivamente na II Guerra Mundial pelos combatentes dos dois lados. Browning a projetou para a utilização do calibre alemão 9mm Parabellum, lançado e adotado pela Alemanha em 1908 nas pistolas Parabellum (Luger), e que nesta época já era considerado um dos melhores calibres de uso militar, no mundo. Muitos estudiosos julgam que a Browning 1935 é a sucessora natural das pistolas Colt 1911, ambas projetadas pela mente genial de Browning.

Modelo básico da Browning 1935, tal como lançado originalmente pela F.N., denominada de “Hi-Power”. Foi o primeiro desenho de pistola no mundo a adotar um carregador bifilar destacável, com capacidade de 13 tiros.

Para a Hi-Power, Browning partiu de um projeto quase que inteiramente novo. Somente o sistema de trancamento da culatra, utilizando o cano basculante, foi herdado da Colt 1911, com dois ressaltos transversais na parte superior do cano que se encaixam em cavidades no ferrolho. Porém, eliminou a biela móvel que era utilizada na Colt em favor de um sistema fixo, evitando a flutuação excessiva do cano após os disparos. Pela primeira vez desenvolvia-se um magazine de grande capacidade, treze cartuchos, alojados no carregador em duas filas paralelas. Sabe-se que as pistolas Mauser C96, desde 1896 já usavam carregador do tipo bifiliar, e com capacidade de 10 cartuchos; porém não se tratava de carregadores destacáveis e sim, de fixos, carregados por clipes. Embora o gatilho possua aparência que sugere uma pistola de dupla-ação, o sistema era de ação simples, tal qual uma Colt 1911, ou seja, o cão tinha que ser armado manualmente, para o primeiro tiro. Browning eliminou a trava da empunhadura, porém manteve a trava do carregador que, quando removido, evita o disparo acidental. Trata-se de uma pistola que provou ser uma arma de alta confiabilidade, capaz de disparar com quase qualquer tipo de cartucho 9mm Parabellum padrão, e isso fez com que, com algumas modificações, seja até hoje produzida. Foi também, após a II Guerra, copiada inclusive pela China.

Durante o conflito, como a F.N. ocupada era incapaz de suprir exércitos aliados com essa arma, a firma John Inglis Co. Ltd. de Toronto, Canadá, um dos países que rapidamente adotaram essa pistola, resolveu produzi-la localmente. Uma história interessante aconteceu nesta ocasião. Os desenhos e as especificações técnicas, bem como os processos de fabricação da 1935 estavam somente disponíveis em uma determinada localidade no sul da França e que, por algum motivo até hoje desconhecido, estavam impossibilitados de serem enviados ao Canadá. Por outro lado, John Inglis teve acesso à seis armas montadas que, chegando à suas mãos, foram totalmente desmontadas e estudadas meticulosamente pelos engenheiros da empresa. Através delas, o pessoal da Inglis criou os desenhos e estabeleceram as dimensões e tolerâncias, levando-se em conta somente as medições presentes nos exemplares. Finalmente, deu-se início à produção e aos testes finais, que resultaram em produtos tão bons quantos aos que serviram de base. Muitos anos depois, a Inglis teve acesso aos desenhos originais da F.N., e qual não foi o espanto dos engenheiros ao verificarem com que exatidão eles haviam criado os seus próprios desenhos e as suas medidas corretas.

À esquerda, pistola Browning Hi-Power de fabricação canadense (Inglis), modelo modificado para alívio de peso. À direita, modelo da Inglis especialmente feito para o governo da China, com alça de mira regulável em altura.

A Inglis fabricou duas versões: uma com alça de mira fixa para o Governo Britânico e outra, com alça de mira regulável em elevação e coronha de madeira, para a China Nacionalista. Durante a II Guerra a Inglis produziu 151,000 pistolas para o governo britânico. Uma versão foi desenvolvida como teste, com o corpo em alumínio e o ferrolho em aço. Essa versão nunca chegou a ser comercializada em virtude de que os testes provaram que, ao redor de 2.000 disparos, surgiam desgastes e folgas inaceitáveis. Também no Canadá, mais recentemente, a North American Arms Corporation produziu uma modificação da pistola Hi-Power, que recebeu o nome de Brigadier. Foi desenhada para disparar o cartucho .45 ACP, possui o corpo em alumínio, módulo de disparo removível ao estilo da pistola russa Tokarev e sistema de dupla-ação. A capacidade do magazine da Brigadier é de oito cartuchos.

Era bem conhecido o fato de que na F.N., a produção de armas decoradas era algo corriqueiro e essas armas possuíam o seu mercado cativo. Houve época em que a F.N. chegou a ter 150 funcionários em sua folha de pagamento, especializados na arte de “engraving”. Até hoje, como vemos na foto abaixo, a produção de armas decoradas ainda é prática, neste modelo de fabricação atual.

Exemplar decorado da Browning Hi-Power, produzido na Fabrique Nationale na Bélgica (foto: Browning Arms)

Exemplar de produção comercial limitada, fabricação F.N., destinada ao tiro esportivo, dotada de alça de mira regulável em altura e lateralmente (Foto do autor, exemplar de coleção particular).

Atualmente, a F.N. oferece dois modelos da Browning Hi-Power, produzidos na sua fábrica de Herstal: a Hi-Power Standard e a Mark III, nos calibres 9mm Parabellum e .40 S&W. Além das Hi-Power, a linha de pistolas compreende a Pro-9 e a Pro-40, nos mesmos calibres acima, bem como da moderna e revolucionária pistola “Five-seveN”, um projeto em carcaça de polímero, dupla-ação, que inclui um novo cartucho de calibre 5,7mm X 28mm de alto poder de penetração. Em 1989, a FN Herstal, já proprietária da Browning Arms Co. (fundada em 1927), adquiriu o controle acionário da USRAC (U.S. Repeating Arms Co.), que era a detentora da famosa marca das carabinas Winchester.

Pistolas Clássicas "Brownings"

por Carlos F. Paula Neto